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Literatura
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Coleção completa da
Revista Verde reproduzida na íntegra. Clique na Revista ao
lado.
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Ascânio Lopes
1900 não é apenas o primeiro ano do
século XX. É uma aurora nova para o mundo: começa o século das
máquinas e da massa-operária, o século do social. Neste ano se funda
a associação internacional para proteção dos trabalhadores. E
Zeppellin constrói seu primeiro dirigível. Em 1903 nasce a primeira
fábrica Ford. E no ano em que nascia Ascânio Lopes (1906), Pio X
condenava alguns erros anti-católicos, Clémenceau era ministro na
França, reunia-se um congresso da Confederação Geral do Trabalho,
esmagavam-se grevistas em Moscou, inaugurava-se o grande túnel do
Simplon; Bérgson publicava "L'Évolution Créatrice".
A simples
enumeração de homens e fatos, de 1906 até 1929, basta para provar
que o mundo era um caldeirão fervendo. Era o anúncio doloroso do
nascimento de um mundo novo. Neste panorama, Cataguases era uma
cidade aberta e atenta às notícias, às modas, ao progresso, vindos,
sobretudo, do Rio de Janeiro. Ascânio Lopes veio para Cataguases em
1906, com cinco meses - nascera em Ubá-. Nesse ano o Rio Pomba teve
uma das maiores enchentes de sua história.
A Imprensa
Oficial do Município foi criada em 1905 e sua inauguração foi em 28
de janeiro de 1906 com a publicação do primeiro número do
"Cataguases", órgão dos poderes municipais. No mesmo ano foi
inaugurada a Companhia Fiação e Tecelagem, sob a direção do Coronel
Joaquim Gomes de Araújo Porto e Major Maurício Eugênio Murgel;
organizou-se a primeira exposição agrícola, pastoril e industrial de
Cataguases. Dois anos depois, em 1908, a Companhia Força e Luz
inaugurava suas atividades e na mesma época o Teatro Recreio vivia
seus dias de glória.
A importância de Ascânio Lopes está em
sua presença. De homem e de poeta. Na sua passagem meteórica deixou
marcas de si, foi um elemento de contágio. Sua importância está em
sua obra reduzidíssima pelo que representa dentro do Grupo Verde e
no que a Verde representou de original e significativo no |
movimento
modernista brasileiro. Foi um colaborador permanente da revista, não
faltou em nenhum número, nem ao sexto e comemorativo de sua morte,
porque nele aparecem três poemas seus, inéditos. Era um dos mais
ativos na confecção da revista. Ascânio morreu novo, a meio caminho
ou mais longe ainda do que poderia ter sido, se tivesse
vivido.
Ascânio Lopes Quatorzevoltas nasceu na noite de 11 de
maio de 1906, na casa dos pais, Antônio Lopes Quatorzevoltas e Maria
Inês Quatorzevoltas. Aos cinco meses foi trazido para Cataguases,
tendo sido criado a partir daí pelos pais adotivos, o tabelião
Cornélio Vieira de Freitas e Dulcelina Cruz. Foi um aluno comum, nos
tempos do Ginásio do Professor Antônio Amaro, porém com algumas
qualidades evidentes: vivacidade, inteligência, sensibilidade. Uma
sensibilidade que prenunciava um poeta. Começou a vida acadêmica,
como estudante de Direito em Belo Horizonte, aos 19 anos. Morreu em
10 de janeiro de 1929.
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Francisco Inácio Peixoto
A vida é uma grande
experiência que os homens perpetuam consigo mesmo. Alguns, durante
sua existência, riscam o céu como estrelas cadentes. Deixam à vista
um traçado luminoso que os outros homens apontam e tomam como
bússola. Até aqueles que nunca viram uma estrela cadente, pelas
descrições, podem conceber a sua grandiosidade. Apesar da louçania,
é efêmero como se demonstrasse que a vida por ser transitória deve
ser marcante. Francisco Inácio Peixoto, Chico Peixoto, foi
uma dessas estrelas cadentes que deslizou no espaço. Nasceu quando a
cidade, ainda jovem, começava a conjugar o seu rotundo
desenvolvimento. Chegou ao mundo em abril de 1909. Pescou nas
margens do Pomba e do Meia | Pataca a inspiração: almejou ser poeta. E
foi! Juntamente com alguns amigos fundou em 1927 a Revista Verde,
marco do movimento literário que pretendia redescobrir o Brasil, a
sua gente, sua cultura. O menino cresceu e teve que procurar outros
centros para os estudos. Foi, primeiramente, para Belo Horizonte;
depois para o Rio de Janeiro, capital da República, onde se formou
em Direito. Mas das leis dos homens não quis saber. Retornou
advogado, se fez industrial e transformou-se em educador e mecenas.
Tinha dentro de si a sentença de Pitágoras: "educai as crianças e
não será preciso punir os homens". Esforçou-se por dar outra feição
à sua terra . Sem deixar de lado a fábrica de tecidos Irmãos
Peixoto, que dirigia juntamente com seus irmãos, iniciou o esboço da
"nova cidade". Primeiro era necessário um grande colégio onde
pudesse ensinar. Trouxe professores, uma nova concepção pedagógica
e, até, um arquiteto para projetar a escola. Assim a provinciana
Cataguases viu surgir o Colégio desenhado por Oscar Niemeyer.
Entendeu que para educar não bastava uma sala de aula. Fez cinema,
praças e trouxe para a cidade uma mentalidade inovadora. Agora se
conjugava modernidade.
A arquitetura tinha outros traços, não
mais retilíneos. A arte brotava da terra correndo em rios no
interior dos homens. Chico morava numa casa de feição audaciosa,
também concebida pelo seu amigo arquiteto. Foi industrial,
professor, diretor de colégio e poeta. Poeta e contista - e dos
melhores. Publicou livros, onde sobressai o "Passaporte proibido",
relatando suas impressões sobre mundo além da Cortina de Ferro.
"Dona Flor", livro de contos, merece constar nas melhores coleções.
Na década de oitenta ainda publicou mais dois: "Erótica Menor" e
"Chamada Geral". Em janeiro de 1986 voltou ao céu. Para ele, sem
dúvida, Cataguases foi um imenso caso de amor que viveu sem
sobressaltos da vaidade, com a humildade dos
sonhadores.
O poeta Paulo Mendes Campos escreveu um
poema que merecia ser dito por/para Chico Peixoto. "Definição - O
tempo não é fonte/Jorrando dois jatos d'água/De uma carranca
bifronte./Não é pesado nem leve/Não é alto nem rasteiro/Não é longo
nem breve./Nem tão pouco o passadiço/Suspenso entre dois vazios/Como
frágil compromisso./O tempo é meu alimento/meu vestido, meu
espaço/Meu olhar, meu pensamento." |
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Enrique de Resende
Enrique de Resende, na verdade
Henrique Vieira de Rezende, nasceu no dia 13 de agosto de 1899, na
fazenda do Rochedo, em Cataguases. Era filho do jurista Afonso
Henrique Vieira de Rezende e de Josefina Adelina Faria de Rezende.
Fez o curso primário na casa dos pais. Estudou no Colégio
Anglo-Brasileiro do Rio de Janeiro e depois fez o curso de
matemática em Ouro Preto, vindo a formar-se engenheiro civil pela
Faculdade de Engenharia de Juiz de Fora em 1924.
Em seu livro
de estréia "Turris Eburnea", de 1923, | a poética de Enrique de
Resende já era moderna. Influenciado por Alphonsus de Guimaraens e a
escola simbolista, em 1923 começaria uma evolução em sua arte que o
levou a criar, com seus amigos Francisco Inácio Peixoto, Rosário
Fusco, Ascânio Lopes, Guilhermino César, Antônio Martins Mendes,
Oswaldo Abritta e Fonte Boa, a Revista Verde em 1927, o marco do
movimento modernista em Cataguases. Nas palavras do grande poeta
Murilo Araújo, "Enrique de Resende, o modernista revolucionário da
Verde, aprendeu antes, felizmente, o contraponto verbal em sua
iniciação como simbolista. Por análogas razões os modernos que
começaram nessa escola foram os que realizaram a arte mais perfeita
e perdurável."
Enrique era o mais velho do grupo Verde.
Engenheiro do departamento de Estradas de Rodagem e com obra
publicada e muito bem aceita pela crítica especializada tornou-se a
figura de referência do grupo Verde - alguns do grupo ainda eram
adolescentes -, e por sua experiência, além de um dos maiores
colaboradores, foi diretor da Revista.
Publicou, entre
outras obras, "Poemas Cronológicos", em parceria com Rosário Fusco e
Ascânio Lopes, em 1928; "Cofre de Charão", em 1933; "Retrato de
Alphonsus de Guimaraens", seu trabalho mais discutido e apreciado
pela crítica, em 1938; "Rosa dos Ventos", em 1957; "A Derradeira
Colheita", em 1964; "Pequena História Sentimental de Cataguases", em
1969; "Estórias e Memórias", em 1971.
O falecimento de
Enrique de Resende, ocorrido em 16 de setembro de 1973, causou
profunda consternação em Cataguases e fora dela, inclusive entre
seus companheiros da Academia Mineira de Letras, para a qual foi
eleito em 1966. |
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Guilhermino César
Guilhermino César, poeta, escritor,
professor e ensaísta, foi um dos expoentes do Movimento Verde,
vertente mineira do movimento paulista de 22. Falecido em dezembro
de 1983, em Porto Alegre, cidade onde viveu por mais de meio século
e onde desenvolveu suas atividades culturais, jurídicas e
jornalísticas, deixou uma obra de considerável volume, tendo se
tornado um dos escritores que mais contribuíram para o resgate da
cultura gaúcha.
Sua estréia na Revista Verde, em 1927,
revelou sua precocidade, ao lado de Rosário Fusco, Francisco Inácio
Peixoto, Ascânio Lopes e Enrique de Resende, todos apelidados "ases
de Cataguases", quando propunham a criação de uma autêntica poesia
brasileira. Inicia-se aí sua rica bibliografia, com destaque para a
obra Meia Pataca (1928). Com a dispersão do grupo, Guilhermino
fixou-se no Rio Grande do Sul, onde deflagrou seu fértil processo
criativo, inaugurando uma nova fase de rastreamento da cultura
riograndense.
Em Porto Alegre escreveu Sul, História da
Literatura do Rio Grande do Sul, O Romance |
Brasileiro Contemporâneo,
Sistema do Imperfeito & Outros Poemas e inúmeras outras obras
cujo acervo compõe uma das mais coerentes, rigorosas e dedicadas
vidas à literatura. Nos últimos anos de sua vida, já debilitado pela
cegueira, Guilhermino não perdeu sua veemência intelectual. Ao
contrário, embrenhava-se com a mesma bravura pelo universo
literário. Foi lidando com as limitações físicas que chegou a
elaborar um último livro intitulado Cantos do Canto Chorado, onde
reuniu num volume trabalhos inéditos e edições
esgotadas.
Apesar de seu brilhantismo, de sua poesia
esmerada, sua obra permanece ainda longe dos olhos do grande
público, talvez por desinteresse das elites editoriais, que pensam
mais a literatura como mercado, ou porque este poeta, gaúcho e
Cataguases ou mineiro de Porto Alegre, tenha escapado do eixo
Rio-São Paulo, longe da mídia e dos holofotes da crítica
especializada. |
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ROSÁRIO FUSCO de Souza Guerra, escritor e advogado, nascido
em São Geraldo, em 19/7/1910. Faleceu em Cataguases em:
17/8/1977.
"Lá se foi o velho Rosário Fusco" - escrevia o
cronista José Carlos Oliveira no Jornal do Brasil de 21 de agosto de
1977, quatro dias após a morte do romancista em cataguases: "um
gigante voraz, andarilho infatigável que viveu (vivenciou, se
preferirem) a aventura antropofágica proposta pelos modernistas.
Cosmopolita, para onde quer que fosse levava um coração provinciano.
Teria que terminar em Cataguases, misteriosa cidade com vocação de
radioamador - dentro das casas, nos bares, na praça, na modorra da
roça é apenas uma prevenção; na verdade, Cataguases está em febril
contato com o mundo, é pioneira em cinema, em literatura, em
arquitetura". A "Cataguases pioneira em literatura"deve muito a
Rosário Fusco - ainda um menino de 17 anos e já fazendo com outros
rapazes da cidade uma revista que daria o que falar na Capital de
Minas, na de São Paulo, em várias outras do Brasil e até do
exterior. Fusco foi o motor da Revista Verde, um vulcão que
escrevia, ilustrava, diagramava, mandava (e recebia) cartas para
todo mundo, mas principalmente pro modernista Mário de Andrade,
| descoberta e aprendizado, embora mais tarde fizesse mais o perfil do
outro Andrade, o irreverente e antropofágico Oswald. Com
seis meses de idade e órfão de pai, Rosário Fusco de Souza Guerra,
chega a Cataguases com a mãe, Auta, lavadeira. Estuda na Escola
Maternal Nossa Senhora do Carmo, conclui o primário no Coronel
Vieira e faz o secundário no Ginásio Municipal. Duro início de vida:
aprendiz de latoeiro, servente de pedreiro, pintor de tabuletas,
prático de farmácia, professor de desenho, bedel no Ginásio. Aos 15
anos, já colaborava no "Mercúrio", jornal dirigido por Guilhermino
César, futuro companheiro na Verde, e logo em dois outros
jornaizinhos, "Boina" e "Jazz Band". Com José Spíndola Santos, edita
"Itinerário", e juntos fundam a livraria-editora Spíndola e
Fusco. Aos 17 anos, é um dos criadores da Verde Editora e, aos
18, publica "Poemas Cronológicos", parceria com Enrique de Resende e
Ascânio Lopes, em 1928. Em 1932, muda-se para o Rio de Janeiro, onde
forma-se em Direito em 1937. Romancista, funcionário federal,
dramaturgo, poeta, jornalista, publicitário, radialista, critico
literário, ensaísta, Secretário da Universidade do Distrito Federal
e Procurador do Estado do Rio de Janeiro. Muitos cargos para um
homem só, mesmo um mulato enorme e da melhor qualidade como Rosário
Fusco. Melhor dizer, simplesmente, profissão: escritor. Mesmo porque
ele foi o primeiro escritor brasileiro a ser reconhecido como tal
pelo antigo INPS. Em fins dos anos 60, ele volta a Cataguases, onde
viria a morrer em 1977. Publicou vários livros: em 28, Fruta de
Conde (poesia), 1943, O Agressor (reeditado depois, em 68, na Itália
pela Editora Mandadori e no Brasil em 76 pela Francisco Alves).
1940, Amiel, (ensaio), O Livro do João (romance), 44, Anel de
Saturno e O Viúvo, em 1949 (teatro), Carta à noiva, 54, (romance),
Introdução à Experiência Estética (ensaio), em 49, Auto da Noiva
(farsa), em 61 e Dia do Juízo (romance) também em 1961. Deixou
dezenas de correspondências com expoentes da literatura brasileira,
especialmente Mário de Andrade, dezenas de "diários" e dois romances
e um livro de poesia erótica e de viagens. |
Os Verdes de Cataguases
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Uma foto rara: Humberto
Mauro (de paletó cinza, debruçado na escada) recebe os jovens da
"Verde" durante a filmagem de "Sangue
Mineiro". |
A descoberta
de Cataguases
Patrícia Moran
Os escritores modernos respondem com ironia ao
mundo, percebido em sua fragmentação. A unidade, a autonomia da forma, a
concentração e a completude, características do impulso modernista
tornaram imprecisas as distinções entre linguagem poética e linguagem
cotidiana. A contradição peculiar entre a dissolução da forma e o
tradicionalismo do conteúdo é aguda na literatura. O movimento modernista
fez a representação teatral de um complexo silêncio, cujos significados
incluem recusa E subversão e adquire em Cataguases dimensão
exemplar.
A descoberta de Cataguases.
"modernos são
móveis antigos e neuroses recentes"
Hugo Von Hofmannsthal - 1893.
O
ano de 1927 ficou na história de Cataguases porque a vanguarda literária
do Brasil olhou para a cidade, tornando sua presença obrigatória nos
compêndios sobre o modernismo brasileiro. Rosário Fusco, Enrique de
Resende,Francisco Inácio Peixoto, Guilhermino César e Ascânio Lopes
inventaram e lideraram o movimento que ofereceu ao país a revista Verde,
uma publicação modernista nascido no interior de Minas.
O pioneirismo
do cinema de Humberto Mauro já fizera Cataguases figurar em publicações
nacionais como a revista Cinearte. Os ases, assim chamados por Oswald e
Mário de Andrade, também haviam circulado nacionalmente, pois Álvaro
Moreira publicara seus poemas na revista ParaTodos. Mas Verde veio
reposicionar Cataguases no cenário da arte nacional. Pela primeira vez,
uma publicação do interior era palco do debate das vanguardas
literárias.
Já se passaram mais de sessenta e cinco anos desde o
acontecimento Verde. As crônicas, ensaios e capítulos dedicados à revista
guardam o tom de furor e, ao mesmo tempo, de condescendência semelhante ao
que se percebia nos modernistas das capitais culturais do país. A
perplexidade diante desta revista realizada por jovens do interior,
continua décadas após o fim de Verde.
Para se entender o Verde como
resultado dos objetivos de um grupo, e não um evento episódico, ou
acontecimento pitoresco por sua jovialidade e origem, é preciso discorrer
sobre a trajetória dos futuros integrantes da revista. Quando seu processo
de maturação é colocado, a revista adquire a feição de fruto de um
trabalho persistente. A conquista do Brasil e dos mestres do modernismo
brasileiro - em 1927 Mário de Andrade já havia publicado A Paulicéia
Desvairada e Oswald Memórias Sentimentais de João Miramar - passa a ser
lida na perspectiva de Cataguases, ganhando a acepção de um trabalho
local.
Verde foi ainda importante para a solidificação do movimento
modernista em termos nacionais: representou a conquista do interior
brasileiro e o rejuvenescimento do modernismo. O movimento modernista,
como um todo, foi um acontecimento artístico cosmopolita e poliglota. Um
momento em que a vanguarda colocava questões tanto em termos estéticos,
quanto de postura política e social. A busca do novo, a substituição do
novo era a palavra de ordem. O modernismo representava o escândalo, a
novidade, a pluralidade de visões de mundo.
A maneira como os ases se
colocaram os aproximou das ações desenvolvidas tanto pelos vanguardas
européias, quanto pelos modernistas brasileiros. Rosário Fusco, ao
realizar os primeiros contatos com São Paulo visando pedir colaboração
para o Verde, agiu como um adolescente de dezessete anos que era. Não teve
cerimônias, usou de provação e espontaneidade, tratando Mário de Andrade e
os demais poetas de São Paulo por "seus bostas". A irreverência cabia no
modernismo, sendo apreciada por seus signatários brasileiros. Assim, a
primeira acolhida de Verde também é fruto da empatia provocada pela carta,
pois fusco teve senso de oportunidade ao enviar a carta desabusada para a
pessoa certa.
Outra marca da espontaneidade e sentido de descoberta dos
poetas Verdes está nos artigos da revista. Observando-se uma procura
intuitiva de definições estéticas, textos ricos de impressões sem
apreciação crítica. Esta características das crônicas dos ases podem ser
apontadas como uma limitação de seus realizadores, mas também como uma
falta e, por isso mesmo, busca de posicionamento intelectual, como um
exercício literário movido pelo afã de conhecimento. Quando algum trabalho
publicado recebia críticas, seu autor se avaliava, ouvia os comentários de
terceiros, retratando-se publicamente em diversas ocasiões . Em suma, os
ases haviam se lançado em uma aventura chamada Verde e praticavam o
modernismo como uma possibilidade de descobertos, de experimentação
literária sem ranços ou posturas previamente definidas. Viam com os olhos
livres representando de maneira espontânea as propostas amadurecidas do
modernismo.
As relações do grupo com a cidade revelam a importância
estratégica de Cataguases para a constituição da Verde, pois a partir de
seu surgimento e aceitação pelos modernistas de São Paulo, acirra-se o
confronto entre os ases e a cidade. Assim, paradoxalmente, a cidade os
auxiliava e limitava na empreitada modernista.
A procura de novidades
literárias pelos jovens da revista Verde teve duas fontes principais de
fomento e satisfação: o Grêmio Literário Machado de Assis e João Luiz
Almeida. O Grêmio Literário era uma espécie de associação de estudantes,
responsável pela realização de diversos eventos no Ginásio de Cataguases,
dentre os quais destacam-se os encontros dominicais. Estes contavam com a
presença maciça do corpo docente e discente, pois se tratava de uma
atividade extra-escolar obrigatória. Os alunos que se recusassem a
participar eram obrigados a estudar no "repouso". Diante da opção
oferecida pela escola, as reuniões contavam com altíssimo quorum. O
compromisso com o Grêmio, fundado pela imposição da diretoria e
oficializado pela presença dos professores, foi sendo assumido pelos
alunos com o passar do tempo. Todos os assuntos de seu interesse eram
colocados em debate. Recortes de jornais, de revistas e livros se
constituíam em matéria de discussão nestes encontros denominados por
Guilhermino César de caldeirão literário. Desenvolvia-se no Grêmio o
interesse pela literatura, que inflamava os jovens, levando-os a adotar
posturas apaixonadas. Um fato ilustrativo do ambiente vivido no Grêmio foi
uma briga resultante das discussões literárias: Camilo Soares, um dos
futuros Verdes, discordava sobre a validade do abandono do parnasianismo,
não aceitando as novidades defendidos por Guilhermino César e Francisco
Inácio Peixoto. No intuito de provocar os colegas, Camilo Soares levou
para a escola um texto de Raul Machado intitulado Agoniado Verso, no qual
o autor sentenciava a morte da poesia caso os poetas insistissem no
abandono da métrica clássica. A provocação surtiu efeito e Francisco
Inácio Peixoto discutiu com Guilhermino César a ponto de cortarem
relações. Guilhermino lembra que, por ocasião da briga, chegou a se falar
em bengaladas(1). Dois anos depois, todos assinaram o Manifesto do Grupo
Verde de Cataguases, publicado como anexo no terceiro número da
revista.
Outra fonte propulsora e de abastecimento da curiosidade dos
ases foi João Luiz Almeida, lembrado por Rosário Fusco, Francisco Inácio
Peixoto, Enrique de Resende e Guilhermino César como o bibliotecário
ambulante e o caixeiro viajante do modernismo cataguasense.
Cerca de
três anos mais velho que os rapazes do ginásio, João Luiz estudava
Direito, no Rio de Janeiro. Filho de um rico fazendeiro de café e
vereador, ele se dispunha a buscar regularmente, no Rio, as encomendas
feitas pelos amigos. Livros como A Paulicéia Desvairada de Mário de
Andrade e Casa do Gato Cinzento de Ribeiro Couto foram lidos por ocasião
de seu lançamento, levados a Cataguases pelo caixeiro viajante João Luiz.
Segundo Guilhermino, "os poderes do livro" rompiam com o "isolamento
geográfico" de Cataguases (2).
Nesta ocasião, Rosário Fusco ainda não
cursava o ginásio mas convivia regularmente com alguns estudantes. Fusco é
citado por seus companheiros de revista como o principal responsável pela
existência de Verde. Apesar de não ser aluno do Ginásio de Cataguases, ele
soube insuflar e unir os jovens em torno da idéia de se realizar a
revista. Mulato, filho de uma lavadeira, teve as portas das famílias
tradicionais abertas (Peixoto, Vieira Resende, Tostes, etc) devido ao seu
"magnetismo de menino prodígio". Lavando vidros nas farmácias do Tostes e
do César, ajudava no sustento da casa e conhecia Guilhermino. Acompanhando
sua mãe na lavagem de roupa, freqüentava a casa de Francisco Inácio
Peixoto.
Interessado em discutir sua poesia, Fusco procurou Enrique de
Resende, intelectual das letras respeitado naquela comunidade. Em 1925,
Enrique retornava de Juiz de Fora, trazendo na bagagem seu livro Turris
Ebúrnea, publicado em 1923 pela Editora Monteiro Lobato, e o diploma de
bacharel em Engenharia Civil. Perante os rapazes da Verde e a comunidade
local, Enrique era uma autoridade em termos literários, pois costumava
redigir crônicas para o jornal O Cataguases e participar, como orador, de
festividades promovidas pela oficialidade local. Ir ao seu encontro
implicava a quebra de tabus e medos, significava criar uma relação pessoal
com alguém de posição e de notório saber. O contato com Enrique
representou uma conquista literária que abriria novas fontes de
informação, tratadas pelos jovens como descobertas.
Fusco dirigiu-se à
residência de Enrique, colocando sob sua porta um poema e uma carta, na
qual pedia opinião sobre seus versos. Enrique surpreendeu-se com a
situação, chegou a pensar que se tratava de alguma brincadeira. Saiu à
procura do autor da carta, encontrando Fusco a pintar cartazes
publicitários de cinema . A partir de então , passou a ter a sua casa
constantemente assediada pelos demais rapazes do grupo. Uma carta de
Enrique de Resende à Francisco Inácio Peixoto nos dá uma idéia do que
Enrique representou naquele momento para os jovens da Verde:
"Recebi.
Você ao que vejo pensou que/ eu fosse um medalhão. Fosse um/ sujeito que
pelo fato de have/ publicado um livro passadista. Com epigrafe latina,
assumia ares albertoliverianos em face de um novo representante da
modernidade. Mas enganou-se, redondamente. Ora bolas. Que moço também eu
sou. Fique sabendo que comigo não tem esse negocio de embromação não.Tá
bom, tá bom. Tá ruim, tá ruim. E ninguém tem nada com isso".
(3)
Realizou-se, aí, a primeira relação artística dos ases com um
profissional das letras, e Enrique soube ouvir e acolher, para também ser
acolhido. O encontro com este poeta de vinte e oito anos foi decisivo para
a constituição do grupo Verde. As investidas isoladas, no sentido de se
realizar uma publicação agora eram objetivo comum, e isso dava aos rapazes
do Ginásio, a Fusco e a Enrique uma fisionomia de grupo.
Todos os
integrantes da Verde já haviam redigido poemas ou crônicas no jornal de
Cataguases. Guilhermino editou o Mercúrio, periódico da Associação
Comercial, e publicou artigos para O Estudante, jornal do Ginásio. Rosário
Fusco juntamente com o João Luiz dos livros lançou Jazz Band, tablóide que
teve única edição e se auto-denominava "quinzenario moderno e mundano".
Agora faltava uma publicação conjunta para unir o esforço modernista
local.
A revista Verde, com detalhes verdes na capa, saiu em setembro.
Seu primeiro numero foi exclusivamente mineiro contando por exemplo com a
colaboração de Carlos Drumond de Andrade, Emilio Moura e Martins Mendes.
Problemas de ordem financeira dificultaram a manutenção da periodicidade
mensal da revista. O quinto numero da primeira fase de Verde, só foi
lançado em maio, motivando uma brincadeira dos ases. Eles transformaram os
detalhes verdes em vermelho alegando que a demora no lançamento da revista
ocasionou seu amadurecimento. Na segunda fase foi lançado apenas um numero
em homenagem a Ascânio Lopes, morto prematuramente.
As cartas enviadas
a São Paulo, Rio de Janeiro, ao norte e sul do país começavam a dar
retorno. Cartas,contos,crônicas, poesias e livros chegavam a Cataguases,
indicando o sucesso da Verde. Os ases não dissimulavam seu furor, trocavam
cartas entusiasmadas comemorando os resultados alcançados. Não imaginaram
a repercussão de Verde, não contavam figurar lado a lado com seus mestres,
haviam conquistado o Brasil depressa demais!
"Fiquei grogui(sic) quando
soube que/ vocês aí já mantêm correspondência/ com o Mário, o Alcântara, o
Milliet./etc. Mas rapaz! Que furo! Que furão!/ É o caso de se babar.
(4)
O grupo de Cataguases mantinha aceso o entusiasmo juvenil. Através
de seus textos presentes na revista- impressões parciais e repletos de
adjetivos e juízos de valor percebe-se a imaturidade dos ases. Mas essa
imaturidade literária permitiu a Verde abrigar todo e qualquer
representante do modernismo.
Polêmicas e busca de definições
encontravam terreno na revista, que, indiscriminadamente, acolhia Mário de
Andrade, Ribeiro Couto e Godofredo Rangel. Como disse Mário:
"a
Verde chamava às armas
...denunciava as investidas da
idéia
modernista no país. A Verde conseguia
a um tempo centralizar e
arregimentar
o movimento moderno no Brasil."(5)
Transformou-se
em um fórum de debates, conquistou poetas encastelados em posições
definitivas sobre o destino e objetivos do modernismo. Nas páginas de
Verde escritores de todo o país pensaram o modernismo,e retribuíram a
acolhida dedicando poemas aos ases, como HOMENAGEM AOS HOMENS QUE AGEM,
escrito a quatro mãos por Mário e Oswald de Andrade:
Tarcila não
pinta mais
com verde Paris
Pinta com
Verde
Cataguases.
Os Andrades
Não escrevem mais
Com
terra roxa!
Não!
Escrevem
Com tinta
verde
Cataguases
Brecheret
Não esculpe mais
com
pastilina
Modela o Brasil
Com Barro
Verde
Cataguases
Villa Lobos
Não compõe mais
Com
dissonâncias
De estravinsqui
NUNCA
Ele é a mina
verde
Cataguases
Todos nós
Somos rapazes
Muito capazes
De
ir ver de
Forte Verde
os ases
cataguases (6)
Mário de
Andrade não poupava esforços para garantir o sucesso da revista. Pedia
para seus amigos e correspondentes contribuições financeiras e artigos,
auxiliava na venda da Verde, pois reconhecia o valor da revista para
aquele momento do modernismo brasileiro. É importante lembrar que na
década de vinte as revistas literárias uniam os modernistas de todo país.
A precariedade dos meios de transporte e comunicação fez destas
publicações meios de difusão e divulgação de livros e idéias. O modernismo
se pensava nas revistas.
" Minas agora voltou ao modernismo.
E
voltou com uma revista de.../ Cataguases.
A coisa pode ser um /
pouco cômico, mas
contra a evidencia / não há resistência.
O
que o Rio e São / Paulo não possuem,
uma coisa elementar e
fundamental, sem o que
não é possível nem falar de um /
movimento
literário qualquer: uma / "revista", essa
coisa
corriqueira em toda parte e para nós aqui tão
metafísica." (7)
Cataguases e seus jovens poetas foram aplaudidos porque, na
perspectiva dos modernistas dos grandes centros, traduziam o sucesso do
modernismo nacional. Desde 1924 o modernismo brasileiro ganhava uma
acepção nacionalista e o nacionalismo era uma palavra de ordem. A
descoberta do interior mineiro, sem tradição barroca era uma novidade:
Verde era a novidade.
O mérito de Verde e o aplauso incondicional
recebida por seus poetas deviam-se, segundo Ribeiro Couto, a terem
integrado Cataguases na realidade nacional atingível, que limitava-se às
regiões ou cidades conectadas com as cidades do Rio de Janeiro e São
Paulo. O etnocentrismo das capitais culturais do país é ironizado por
Ribeiro Couto na Verde, sendo considerado uma postura
anacrônica.
"A contingência das enormíssimas
distâncias
criou entre nós o hábito
dandy, de uma pose um pouco Anatole
France
(um pouco 1910) de/ duvidarmos
mutuamente da / existência das
nossas
cidades.../ Por isso o brasileiro da rua do
Ouvidor,
(principalmente o brasileiro / da rua
do Ouvidor), diante do mal
/ irremediável, criou esta
defensiva para / sua indiferença:
Manaus
não existe./ Cuiabá não existe,
Goiás não existe."(8)
Cataguases
representou o alcance nacional do movimento modernista, um indício da
descentralização da produção e significou a vitória dos objetivos do
modernismo. Os modernistas fizeram Verde triunfar, já que ironicamente a
vitória da revista dependia de seu alcance, dependia da conquista da
"realidade nacional atingível". Verde era um fenômeno nacional, os rapazes
da Verde conquistaram o Brasil para os modernistas, devolvendo através da
ação e intuição os frutos da reflexão dos centros da produção intelectual
do Brasil.
" É que realizamos essa conquista magnífica da
descentralização intelectual, hoje em contraste aberrante com outras
manifestações sociais do país. Hoje a corte, o fulgor das duas cidades
brasileiras de mais de um milhão não tem nenhum sentido intelectual que
não seja meramente estatístico. Pelo menos quanto a literatura, única das
artes que já alcançou estabilidade normal no país. O movimento modernista,
pondo em relevo e sistematizando uma "cultura" nacional, exigiu da
inteligência estar a par do que se passava nas numerosas
Cataguases".(9)
Ascânio Lopes, o integrante de Verde que melhor
sistematizou e polemizou questões em vaga na época ironizou a redescoberta
do "umbigo" cotidiano do interior, daquilo que se encontra todos os dias à
disposição do brasileiro, e precisou ser resgatado pelo modernismo, por
uma elite intelectual, para ser descoberto. O Brasil provinciano de festas
do interior, de comemorações, o país da igreja, da escola e da
simplicidade espontânea, o Brasil-Cataguases. O modernismo do Manifesto
Pau Brasil propunha para a poesia os fatos cotidianos. Ascânio, em tom de
brincadeira, faz destes fatos matéria de sua poesia, situando a descoberta
como um acontecimento corriqueiro.
Descoberta do
Brasil
Programa:
1) Foguetões.
2) Alvorada
pela Banda Música 3 de maio.
3) Missa com sermão obrigatório e leilão
no final para as obras da igreja.
4) Passeata do batalhão escolar
e sessão cívica no grupo local.
5) À noite, na sede do Grêmio Literário
Cultores das Letras, o Sr. Pacífico Montes discorrerá eruditamente sobre o
acaso da descoberta.
6) Fogos de artifício. Nota: Haverá foguetes de
lágrimas (10)
Se para os modernistas de São Paulo era clara a
função e o papel de Cataguases para o modernismo, o mesmo não se dava com
os Verdes. A tensão cordial marcava o encontro dos jovens com a cidade
sinalizando, num primeiro momento, a necessidade do grupo se expandir,
experimentar nacionalmente o sentimento moderno que se desenvolvia em
Cataguases. Filhos bem nascidos da cidade, contavam com o apoio do jornal
O Cataguases. Mas esse apoio não era incondicional, o jornal cobrava uma
participação efetiva no cotidiano da Cataguases
Percebia que o grupo
era diferente da comunidade: os ases evitavam dividir seus segredos
literários.
"(...) Os modernistas daqui, graças a / Deus
estão
isentos destes maus / companheiros.
Uma causa ainda não /
compreendi. Porque
ainda não se / voltaram para o público.
Andam
dentro / de casa e só de vez em quando
dão / uma espiada pela janela." (11)
Ao negar o cotidiano cataguasense, criavam um espaço de
relaçao único e diferenciado. Buscavam , assim, esboçar um projeto que os
aproximasse de seu alvo: o modernismo, os modernistas. Mas, ao se lançarem
na revista, eles sentiram seus limites e força: a origem interiorana era o
que tinham de peculiar, era isso que os fazia notórios em todo país,
voltaram-se então, para Cataguases como o lugar da existência do grupo.
Cataguases era redescoberta enquanto possibilidade de existência
modernista.
"Então Verde começou a existir para / nós como
o
nosso ninho, era onde nos / encontrávamos
bem como os nossos / amigos.
Eu ia para Belo
Horizonte, / passava um mês lá e já estava
doido
para voltar... nós vivíamos em duas / partes , em
três partes
, eu vivia em Belo / Horizonte e
Cataguases, o Chico no / Rio e
em Cataguases.
Cataguases / passou a ser para nós a nossa meta,
e a
/ Verde começou a crescer."(12)
Cataguases era assim um ideal, a
primeira referência literária, o local a partir de onde se descobriu e
conquistou o mundo. No poema Cataguases, de Ascânio Lopes, são
transparentes as Cataguases do grupo. Ascânio idealiza a cidade
transformando a falta de perspectiva do interior, de Cataguases, em
memória ativa, em poesia. O poeta, brincando ou brigando com as palavras
constrói, o mundo do desejo, e o cotidiano, o acontecimento, transforma-se
em um jogo de imagens afetivas. A Cataguases lenta deixa de significar
dificuldade para a aquisição de livros ou produção cultural, traduzindo um
estado emocional:
CATAGUASES
Nem
Belo Horizonte, colcha de retalhos
Iguais
cidade européia de ruas
retas, árvores certas,
casas simétricas
Crepúsculos bonitos,
sempre bonitos.
Nem Juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos,
Klaxons.
Cidade inglesa de céu esfumaçado,
cheio de
chaminés negras.
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bugres
sem Rodenbach
onde passadistas continuam a tradição
das
coisas que lá esquecemos
Nem Sabará cidade relíquia
(...)
Não! Cataguases... Há coisa mais bela
e serena
oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inocência / das
cidades
que nunca foram, que não são / cuidam de ser.
Não
saberás, não sei, ninguém / compreenderá
jamais o que desejas,o /
que serás.
Não és passado, não é futuro, não / tens idade.
Só
sei que és a mais mineira das / cidades
de Minas
Gerais...(...)
Vale a pena viver em H
Nem
inquietude,
Nem peso inútil de recordações
Mas a
confiança que nasce das coisas
que não mudam
bruscas,
nem ficam eternas. (13)
Por outro lado, houve um
momento em que os Verdes passaram a atacar sistematicamente Cataguases,
que consideravam provinciana: previam atritos com a cidade, atitude típica
das vanguardas nacional e européia. Estas contradições eram inerentes ao
processo vivido naquele momento, imagens do quadro de conflitos entre os
Verdes e as cataguases possíveis: a cidade ideal e a cotidiana, a desejada
e a vivida, a formadora e a limitadora.
Os ases lançaram a revista,
editaram livros, redigiram crônicas e poesias para outras publicações
modernistas. Participaram e posicionaram-se nas querelas causadas pelo
desentendimento entre Mário e Oswald de Andrade. A Verde conquistou o
Brasil, recebeu a contribuição de diversos países da América Latina e teve
um poema do poeta francês Blaise Cendras escrito para os jovens de
Cataguases.
Os integrantes da revista Verde não deixaram grandes obras,
mas poemas e reflexões que, por sua simplicidade formal, traduziam a
imaturidade dos poetas e o primitivismo na poesia buscado pelo modernismo.
A liberdade temática e inaugurada com o modernismo acontecia em Cataguases
como exercício, como aprendizado, como descoberta e afirmação de novas
possibilidades para a poesia.
RIO DE JANEIRO
Os meus sentidos são um menino
que veste um
vestido novo. (14)
JUIZ
DE FORA
Manchester das minas
gerais
O crepúsculo escorrega violentamente
e cai / na
paisagem de cartão-postal
e nos olhos encantados do
Cristo-do-/Morro (15)
UIÁRA
Si você visse
os olhos dela
Tão bonitos brilhando
Você tinha coragem
Fernão
Dias Paes Leme
De manda-los examinar
Pelo ourives d'El Rei D.
Afonso,
tinha Fernão Dias?
Tinha não...(16)
A
permeabilidade dos integrantes da Verde a informações vindas de fora
marcou anos a fio os membros do grupo. Em diversas cartas discutem o papel
da revista, a importância de Mário de Andrade, ou a possibilidade de
relacionamento de Verde.
Rosário Fusco, a própria encarnação da
procura, pesquisa a jovialidade da revista de Cataguases, recebeu de modo
mais decisivo as influencias externas, principalmente as de Mário de
Andrade. Fusco recebia lições, ouvia lamentações e auxiliava Mário de
Andrade na pesquisa de marchinhas e abolos mineiros para seu livro sobre
música folclórica. Para Rosário Fusco, Mário teve um papel decisivo.
Enquanto Francisco Inácio Peixoto estudava Direito, no Rio de Janeiro,
Ascânio Lopes e Guilhermino César, em Belo Horizonte, Fusco permanecia em
Cataguases mantendo intensa correspondência com Mário. Aos poucos, Fusco
foi perdendo sua virgindade literária ao ouvir os conselhos de Mário e ao
discutir poesia com o professor paulista. Fusco tornava-se vulnerável ao
poeta: um ano após Verde haver terminado ele pedia uma receita a Mário
para reconquistar sua autonomia literária. Como um mestre, Mário oferece a
Fusco uma lição sobre o que é dependência e influencia, ilustrando a
importância de referenciais na edificação da obra dos indivíduos. Para
Fusco, Mário representou uma descoberta que abriu passagem para novos
aprendizados, um farol verde sinalizando a permissão, a possibilidade da
passagem.
"Você me pede uma receita para se / libertar de
mim,
receita nesses casos / não há, creio. Depois
"se libertar" pode /
ter conceito vário.
Certas tendências / gerais é possível
aceitar, usar
sem que / haja influencia. Há aceitação
de
princípios, nada mais. Se os outros
chamaram isso de
influência, a besteira
é tão desumana, tão individualista,
que
não pode interessar a indivíduo / socializado.
Assim
panbrasileirismo / de psicologia, temática,
dicção, / vocabulário
que em nossa literatura
ficou determinado como uma tendência /
minha,
porque fui eu e sou o sistematizador
mais
escandaloso disso / é uma tendência geral que
se
aceita ou / não. Aceitar com reflexão,
com
consciência não é ser influenciado, e se/ a
malvadez
age até nisso, a gente como / ser humano,
ser
socializado creio que / não deve se amolar com
a
malvadez e deve estar em uma dela"(17).
Nessa carta Mário protege e
consola Fusco, e defende-se também de seus críticos. Ao adotar o
modernismo, Mário o avalia, universalizando os processos de aprendizagem
em movimentos literários nos quais se verifica a experimentação
lingüística.
Para Cataguases, seus poetas foram um marco que até hoje
não encontrou superação.
Francisco Inácio Peixoto permaneceu na cidade,
erigiu um patrimônio arquitetônico modernista, praticou e incentivou o
mecenato. Graças a seu trabalho, Portinari, Djanira, Burle Marx deixaram
suas marcas em Cataguases. Francisco Inácio Peixoto encontrou, ainda;
disponibilidade para a literatura, publicando poesias, romances e
contos.
Rosário Fusco traduziu clássicos da literatura, realizou
diversos romances como O Agressor, um dos primeiros representantes
brasileiros do realismo fantástico. Guilhermino César mudou-se para o Rio
Grande do Sul, onde se dedica à vida acadêmica, redigindo livros de
crítica literária e poesias. Enrique de Resende organizou a história
afetiva de Cataguases no livro Pequena História Sentimental de Cataguases,
e outras publicações do gênero.
Os ases representaram um precedente
histórico para aquela comunidade, desenvolveram nela o gosto pela
literatura. Não digo que a cidade de uma maneira genérica seja sensível a
literatura, mas freqüentemente surgem em Cataguases poetas e suplementos
literários. O poema Processo, poesia que explorou os signos não verbais
para a realização do poema , teve alguns signatários em Cataguases, dos
quais se destacam os irmãos Joaquim, Aquiles Branco, P. J. Ribeiro e
Ronaldo Werneck.
Este novo grupo de poetas também alcançou circulação
nacional, sendo citados em coletâneas como a Revista de Cultura Vozes
dedicado ao Poema-Processo e à Poesia Experimental. Editaram a partir de
1968 o SLD suplemento/literatura/difusão, anexo ao Jornal Cataguases. Em
maio de 1975, como Suplemento Cultural do Diretório Acadêmico Francisco
Inácio Peixoto e do Jornal Cataguasense, lançaram Totem, jornal que
circulou sem publicidade definida até o início da década de
oitenta.
Novamente a vanguarda literária volta a ser discutida e
praticada em Cataguases. Rosário Fusco, Francisco Inácio Peixoto e
Guilhermino César, principalmente os dois primeiros, são chamados para
escrever e dar entrevistas para esta geração de novíssimos poetas da
cidade.
Novos livros são lançados em Cataguases, a maioria deles
custeados pelos próprios autores. Dentre as realizações do grupo
responsável pelo Poema-Processo, destaca-se, em 1969, o primeiro "Festival
Audiovisual de Cataguases", reeditado no ano seguinte. Ainda era moda na
televisão os festivais da canção e já se pensava em festival audiovisual
em Cataguases. O movimento de arte postal, a arte da poesia através do
correio, também encabeçado por Joaquim e Aquiles, P.J.Ribeiro e Ronaldo
Wernck, entre outros, restabelece a comunicação de Cataguases com o mundo.
Em 1969 e 1970, realizam-se duas exposições internacionais de Poesia
Visual.
Cataguases é uma cidade rara. Na década de vinte, o cinema de
Humberto Mauro e Pedro Cornello fizeram os habitantes da cidade se
transformarem em atores, e as ruas em cenário. No quarteirão seguinte, a
revista Verde ganha o Brasil e a América Latina. Quatro décadas depois,
apareceram suplementos literários e concursos de poesia , e a cidade tem
que conviver com outra vanguarda.
Esta cidade parece viver de grupos. A
turma do Rosário Fusco, o pessoal de Joaquim Branco. Histórias e estórias
criam uma tradição , solidificam op habito literário. Grupos e jovens que
não envelhecem, porque precisam alimentar a chama da curiosidade, o desejo
de descobertas, para não sucumbir ao movimento da Cataguases escondida nas
palavras de Ascânio, das cidades do interior do Brasil.
Belo Horizonte,
outubro de 1993
Patrícia Moran
Historiadora
Mestrando em
Comunicação pela UFRJ
Desenvolveu trabalhos de pesquisa no CIEC-RJ para
o
qual redigiu o "Quase Catalogo 3
Estrelas do Cinema Mudo - Brasil
- 1908 - 1930"
Realização de vídeos.
NOTAS
(1) CÉSAR,
Guilhermino. Os verdes da Verde foc-simile Metal Leve.
(2) Idem,
ibidem
(3) in SALLES GOMES, Paulo Emílio, 1975
(4) Idem,
ibidem
(5) ANDRADE, Mário. Diário Nacional 10/07/32
(6) VERDE,
nº 4
(7) Tristão de Athayde apud Cecília
LARA A alegre e
paradoxal revista verde
Anexo fac.simile
(8) VERDE Nº 5
(9)
idem, ibidem
(10) VERDE nº 3
(11) O Cataguases. 21/07/27
(12)
Guilhermino César entrevistado por Kátia Bueno ROMANELLI
(13) VERDE nº 3
(14) VERDE nº 2
(15) idem, ibidem
(16) VERDE nº5
(17)
ANDRADE, Mário, Carta de 17/12/31
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ÁVILA, Afonso (org.). Modernismo. Secretaria da
Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. Perspectiva.
1975.
BRADBURY, Malcom E MC FARLANE, James (org.). Modernismo: Guia
Geral. SP. Companhia das Letras, 1989.
BUENO, Antônio Sérgio. O
Modernismo em Belo Horizonte: Década de 20. BH. UFMG/PROED,
1982.
COSTA,Levy Simões da. Cataguases Centenário. Dados para sua
história. Cataguases, 1977.
DIAS, Fernando Correia. O Movimento
Modernista em Minas: Uma Interpretação Sociológica. Brasília, EBRASA,
1987.
FERREIRA, Delson. Ascânio Lopes (Vida e Poesia BH. Difusão Pan
Americana do Livro, 1967)
MORAES, Eduardo Jardim. A brasilidade
modernista: sua dimensão filosófica, RJ, Groal, 1978.
PAZ, Octávio. Os
filhos do barro. RJ, Nova Fronteira, 1984.
RESENDE, Enrique de. Pequena
História Sentimental de Cataguases, BH, Itatiaia, 1969.
ROMANELLI,
KÁTIA BUENO. Revista Verde: Contribuiçao para um estudo do Modernismo
brasileiro. SP, 1981. USP: Tese de mestrado (Xerox).
SALLES GOMES,
Paulo Emílio. Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte, SP: Perspectiva,
EDUSP, 1974.
Para um estudo sobre "Os ases de Cataguases" .
SP.USP,F.F.C.H. Separata da Revista
De Língua e Literatura,
1977.
SANTIGO. Silviano (ensaios). Nas malhas de letra. SP. Companhia
das Letras, 1989.
VERDE. Revista Mensal de Arte e Cultura. Diretor:
Enrique de Resende.
Redatores: Martins Mendes e Rosário Fusco (fac.
Simile). Metal Leve. Setembro de 1927 à janeiro de 1928.
Sumário.
Adendo que acompanha a reedição da Revista VERDE.
Guilhermino CÉSAR. Os
"verdes" da VERDE.
Cecílio LARA. A "alegre e paradoxal" revista VERDE
de Cataguases.
Plínio DOYLE, VERDE (História de Revistas e Jornais
Literários).
Comentário
E a Literatura ?
O
projeto "Cataguases, um olhar sobre a modernidade" enfatiza, por razões
mais ou menos óbvias, o aspecto mais plástico da cidade que, no entanto,
tem sua razão de ser, reconhecida na literatura.
Foi a Verde que
possibilitou a seus integrantes relacionar-se em todas as esferas de
cultura nacional. Foi através da convivência com expressões nacionais de
arte literária que se estabeleceu o contato com expressões nacionais das
artes plásticas, da arquitetura e da música. As cartas de Mário de
Andrade, a amizade de Marques Rebello, Manuel Bandeira, Otávio de Faria,
Walter Benevides, Augusto Frederico Schmidt, possibilitaram aos meninos de
Cataguases o contato com Portinari, Di Cavalcanti, Oscar Niemayer,
Brecheret, Tarsila, Santa Rosa, Villa Lobos.
Os meninos do Ginásio de
Cataguases que fizeram o Movimento Verde freqüentavam um grêmio literário.
A cultura vinha de uma Europa empobrecida pela guerra, mas rica de idéias
e humanismo. E eles as exploravam no grêmio do ginásio onde discutiam
filosofia, línguas, ciências humanas, ciências políticas. Não tinham
conhecimento especializado, tinham preocupações sociais e conhecimento
geral e universal. Como a Europa, o Brasil se iniciava na preocupação de
valorizar as características notas de seu povo.
E da discussão das
idéias surgiu a necessidade de fixa-las nas letras: são os romances, os
cantos, a história, a poesia. Torna-se presente uma cultura ou um modelo
de cultura que se prevalece essencialmente do valor do homem como ser
humano, não como ser econômico.
Os garotos de Cataguases se deixaram
levar por essa opção cultural que somente viria engrandecê-los e
projetá-los.
Europa empobrecida e Brasil pobre, mas ambos criativos,
criando riquezas a partir da destruição ou do nada.
E foram os
escritores, os literatos que mostraram o valor de sua atividade, pois lhe
era possível criar e desenvolver o pensamento sem grande necessidade de
meios materiais. O escritor, basicamente, usa papel, lápis e idéias e
dessa forma cultua a vida.
Cataguases espera que o projeto, dirigindo
seu olhar sobre a modernidade, se faça também através da literatura, dando
ênfase à ficção sempre próxima dos sonhos e da utopia, para que se conduza
o povo ao seu destino real.
Tarcísio Henriques Filho.
Prefeito
Municipal de Cataguases.
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